Novo Desenrola: juros altos e spreads bancários disparam endividamento das famílias brasileiras

O governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil nesta semana, buscando oferecer um alívio para as famílias brasileiras que enfrentam um endividamento crescente. Economistas atribuem essa situação à elevada taxa básica de juros (Selic) e aos altos spreads bancários praticados no país, que dificultam o controle financeiro e o acesso ao crédito.

Juros e Spreads: Uma Combinação Perigosa

A taxa Selic, definida pelo Banco Central (BC), e os spreads bancários – a diferença entre o custo do dinheiro para os bancos e o que eles cobram dos consumidores – têm sido apontados como os principais responsáveis pelo endividamento. O spread bancário no Brasil atingiu 34,6 pontos percentuais em março, um aumento significativo em relação ao mesmo mês do ano anterior, e muito superior à média mundial de cerca de 6 p.p., segundo o Banco Mundial.

Maria Lourdes Mollo, professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), explica que a Selic alta impacta diretamente os juros cobrados dos cidadãos. “Os juros dos empréstimos estão muito altos. Isso tem uma relação direta, sem dúvida nenhuma, com o endividamento das pessoas, o que tem dificultado muito a economia a funcionar”, afirma Mollo.

Precarização e Endividamento

A professora da UnB também destaca a precarização do mercado de trabalho, intensificada pela reforma trabalhista de Michel Temer, como um fator agravante. “Grande parte das pessoas está se endividando para completar o orçamento, para pagar despesas com saúde e do cotidiano”, ressalta.

O Novo Desenrola surge como uma esperança para “liberar um pouco o orçamento das pessoas e, eventualmente, até dar um estímulo à economia”, segundo Mollo.

Brasil no Topo dos Juros e Spreads Mundiais

O Brasil figura entre os países com as maiores taxas de juros reais do mundo, com 9,3% ao ano, descontada a inflação, ficando atrás apenas da Rússia. A taxa Selic, embora reduzida recentemente em 0,25 p.p. para 14,5%, ainda é considerada elevada por críticos, apesar de o BC a defender como necessária para o controle inflacionário.

No que diz respeito aos spreads bancários, o país lidera o ranking mundial, segundo dados de 2024 da World Open Data. Juliane Furno, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta que essa disparidade se reflete nas taxas cobradas. “O Brasil tem um dos maiores spreads bancários do mundo”, observa Furno.

Os bancos justificam os altos spreads pela inadimplência, mas Furno argumenta que a inadimplência também é uma consequência dos juros elevados. Dados do BC de março revelam que os juros médios cobrados de pessoas físicas chegam a 61% ao ano, enquanto para empresas a média é de 24%.

A “Bola de Neve” das Dívidas

Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a alta taxa Selic impulsiona todas as outras taxas de juros. “Quando o trabalhador vai pagar o empréstimo dele, e passa do limite e não consegue pagar o cartão de crédito, os juros serão mais altos que a Selic”, alerta Malta.

Essa dinâmica cria uma “bola de neve”, onde famílias trabalhadoras buscam novas fontes de crédito para cobrir dívidas antigas, aprofundando o endividamento. Os juros do rotativo do cartão de crédito no Brasil podem ultrapassar os 400% ao ano.

Novo Desenrola: O Que Oferece?

O Novo Desenrola Brasil visa auxiliar famílias, estudantes e pequenos empreendedores a renegociar suas dívidas, limpar o nome e restabelecer o acesso ao crédito. A iniciativa, com duração de 90 dias, promete descontos de até 90% e a possibilidade de usar o FGTS para abater débitos.

Com informações da Agência Brasil

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