O professor de economia da Universidade de Londres, Pedro Gomes, tem divulgado os resultados de um estudo sobre a adoção da jornada de trabalho de quatro dias em 41 empresas em Portugal. Essas companhias, que somam mais de mil empregados em diversos setores e portes, implementaram a escala 4×3 (quatro dias de trabalho por três de descanso) voluntariamente.
Gomes argumenta que a redução da jornada de trabalho não só é viável, como pode “salvar a economia”, trazendo benefícios para a sociedade como um todo. Ele ressalta que o aumento da produtividade por hora compensa os custos para as empresas, citando que historicamente, reduções no tempo de trabalho resultam em melhorias nos processos produtivos.
Resultados positivos em Portugal
A pesquisa revela que, dessas 41 empresas, 52% pretendem manter a jornada reduzida. Mais de 90% não registraram custos financeiros com a mudança, e 86% relataram aumento nas receitas em comparação ao ano anterior. Cerca de 70% concordam que os processos da companhia melhoraram após a transição.
“A semana de trabalho de quatro dias é uma prática de gestão legítima e viável, que proporciona benefícios operacionais às empresas, como melhor ambiente de trabalho, redução do absentismo [faltas] e aumento da atratividade no mercado de trabalho. No entanto, para ser bem-sucedida, a sua implementação requer uma reorganização profunda”, explicou Gomes.
Entre as adaptações mais comuns, destacou-se a diminuição da duração das reuniões.
Indústria do lazer e impacto econômico
Pedro Gomes também aponta que o tempo livre adicional gerado pela jornada reduzida impulsiona a indústria do lazer e do entretenimento, com um efeito positivo na economia. “Os trabalhadores também são consumidores. Eles também são inovadores, também são cidadãos, têm estudantes e, portanto, o que eles fazem no tempo livre tem um impacto econômico”, afirmou.
Ele cita exemplos históricos como Henry Ford, que em 1926 reduziu a jornada para 40 horas semanais, impulsionando a indústria cinematográfica e outras ligadas ao lazer. Gomes sugere que o Brasil, assim como a China fez em 1995, tem potencial para se beneficiar de uma transição para jornadas de trabalho mais curtas, especialmente no turismo.
Redução de faltas e rotatividade
A pesquisa de Gomes indica que a jornada menor contribui para a diminuição das faltas ao trabalho e da rotatividade de funcionários. Isso ocorre pela melhor conciliação entre vida profissional e pessoal, sendo especialmente benéfico para as mulheres.
“A rotatividade de trabalhadores e altos níveis de absentismo (faltas) tem um custo enorme para as empresas. Com menos horas trabalhadas, eles vão faltar menos e vão querer sair menos do trabalho, reduzindo a rotatividade”, disse o economista.
Algumas empresas, segundo o estudo, conseguiram manter o comércio aberto aos sábados ajustando escalas, alocando menos trabalhadores em dias de menor movimento, sem prejudicar o atendimento.
Desmistificando quedas no PIB
Gomes refuta a ideia de que a redução da jornada de trabalho levaria a uma queda no Produto Interno Bruto (PIB). Sua análise de 250 casos de redução de jornada pelo mundo, a partir de 1910, mostra que o crescimento médio do PIB após as reformas foi de 3,9%, superior aos 3,2% registrados nos cinco anos anteriores.
Para o economista, o tempo gasto em deslocamento no Brasil é um fator adicional que justifica a redução da jornada, melhorando a qualidade de vida dos trabalhadores com custos empresariais menores do que o usualmente argumentado.
Com informações da Agência Brasil



